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| A nova corrida global por minerais estratégicos coloca o Brasil no centro do tabuleiro. (Imagem ilustrativa) |
Você já parou para pensar que o seu celular, o carro elétrico dos seus sonhos e até os mísseis que garantem a segurança de nações inteiras dependem de um grupo de 17 elementos químicos que quase ninguém consegue nomear de cor?
Pois é. Estamos falando das terras raras — um nome meio equivocado, porque de raras elas não têm nada. Estão espalhadas pela crosta terrestre com certa abundância. O problema nunca foi encontrá-las. O problema é separar, refinar e transformar esses elementos em ímãs de alta performance, ligas metálicas e componentes que fazem a roda do mundo moderno girar.
E é exatamente aí que a geopolítica entra em cena com força total.
O que são, afinal, esses minerais "críticos e estratégicos"?
Quando o noticiário fala em "minerais críticos", está se referindo a um grupo de matérias-primas essenciais para a transição energética e para tecnologias de ponta. Além das terras raras, entram nessa lista o lítio, cobalto, nióbio, grafite e níquel.
A diferença entre "crítico" e "estratégico" é sutil, mas importante: crítico é aquele mineral cuja falta de suprimento pode travar setores inteiros da economia. Estratégico é aquele que tem valor geopolítico — ou seja, quem controla, manda recado.
As terras raras, em particular, são a espinha dorsal de duas grandes corridas globais que acontecem ao mesmo tempo:
- Transição energética: turbinas eólicas, veículos elétricos, painéis solares e redes elétricas inteligentes dependem de ímãs permanentes feitos com neodímio, praseodímio e disprósio.
- Rearmamento e defesa: um único caça de combate moderno carrega centenas de quilos de componentes com terras raras — de sistemas de guiamento a radares avançados.
O detalhe que muda tudo: civil e militar competem pelas mesmas cadeias de suprimento. Não dá para tratar esses minerais como commodities comuns, guiadas apenas pelo preço.
A China, o xerife do mercado
Vamos aos números, porque eles explicam o cenário com uma clareza brutal.
Em 2024, a China controlava 59% da produção mundial de terras raras, 91% do refino e 94% da fabricação de ímãs. É um monopólio que se estende da mina ao produto final.
Em abril de 2025, Pequim apertou o cerco com um regime de licenciamento rigoroso para exportação de terras raras usadas em defesa e alta tecnologia. Em janeiro de 2026, foi além: impôs controles de exportação especificamente direcionados ao Japão, que detém cerca de 15% da produção mundial de ímãs de terras raras.
O impacto foi imediato. As exportações de sete elementos restritos para o Japão caíram 34% no acumulado dos primeiros quatro meses de 2026, com quedas de 88% em março e 82% em abril.
A mensagem que ficou no ar é clara: dependência mineral virou arma de negociação. Quando a China decide apertar, o efeito cascata atravessa fábricas de carros elétricos na Europa, linhas de montagem de semicondutores em Taiwan e programas de defesa nos Estados Unidos.
China vs. Brasil: quem controla as terras raras?
China domina da mina ao ímã. O Brasil tem reservas, mas ainda engatinha na produção.
🇨🇳 China
🇧🇷 Brasil
Fontes: USGS (2024), ANM (2026), S&P Global (2026), Agência Senado (2026).
Infográfico: Senhor FaceLider
E o Brasil nessa história? Sentado em uma montanha de potencial
Aqui começa a parte que interessa diretamente para nós.
O Brasil é o segundo país com maiores reservas de terras raras do mundo. Os números variam conforme a fonte: o USGS aponta 21 milhões de toneladas (25% das reservas globais), enquanto a Agência Nacional de Mineração (ANM), após revisão metodológica, estima 11,4 milhões de toneladas (15%).
Independentemente da metodologia, o Brasil está consistente e confortavelmente no top 2, atrás apenas da China.
Só que tem um detalhe incômodo nessa história: o Brasil participa com menos de 1% da produção mundial. Ou seja, temos o cofre, mas ainda não temos a chave.
Nossos depósitos estão concentrados em regiões como Araxá, Catalão, Tapira e Salitre, no interior do país, além da cobiçada região da Cabeça do Cachorro, na Amazônia. São depósitos de argilas iônicas — um tipo de minério cujo processamento é comparativamente mais simples do que o de rochas duras.
O potencial econômico é gigantesco. Um estudo da Amcham estima que o desenvolvimento pleno da cadeia de terras raras poderia adicionar R$ 192 bilhões ao PIB brasileiro e gerar 750 mil empregos até 2050.
Não é pouca coisa.
O primeiro passo concreto: a mina de Serra Verde
Em 2024, entrou em operação a mina de Serra Verde, em Minaçu, no norte de Goiás. Não é exagero dizer que ela é um marco histórico: foi a primeira produção comercial de terras raras a partir de argilas de adsorção iônica fora da Ásia.
A operação da Serra Verde tem previsão de atingir 6.500 toneladas anuais até 2027 e é a única produtora em escala industrial de terras raras pesadas — disprósio, térbio e ítrio — fora da Ásia. São exatamente esses os elementos mais críticos e valiosos, usados em ímãs de alta performance que suportam temperaturas extremas.
Em abril de 2026, a Serra Verde foi adquirida pela americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, criando a maior empresa global do setor, com operações no Brasil, Estados Unidos, França e Reino Unido.
O contrato prevê um ofício de 15 anos com preços mínimos garantidos para a produção da Fase I, abastecendo uma empresa de propósito específico capitalizada por agências do governo americano. Em outras palavras: o Brasil entrou, finalmente, no mapa das cadeias de suprimento estratégicas dos Estados Unidos.
Mas — e sempre tem um "mas" — a mina goiana ainda exporta concentrado, não óxidos separados, metais ou ímãs prontos. É como vender a farinha sem nunca ter feito o pão. E, como bem lembra o artigo do Acadêmico Adalberto Fazzio para O Globo, exportar concentrado é repetir o erro histórico cometido com ferro e bauxita.
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O Brasil está acordando? A nova política nacional
Parece que sim — e com força.
Em setembro de 2026, o presidente Lula sancionou a nova Política Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos. O pacote prevê até R$ 7 bilhões em incentivos para projetos de processamento e transformação desses minerais em território nacional.
A lei cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, órgão que definirá quais substâncias entram na lista oficial (com atualização a cada quatro anos) e aprovará projetos prioritários. Também institui o Fundo Garantidor da Atividade Mineral, com aporte de R$ 2 bilhões da União para financiar empresas do setor.
"O Brasil precisa parar de exportar apenas minério bruto e aprender a beneficiar e refinar os minerais no território nacional. Isso não é fechar mercado, nem espantar investidor. É dar segurança, regra clara e defesa do interesse nacional."
— Senador Nelsinho Trad
A proposta também abre a possibilidade de tributação sobre a exportação de minério bruto, um mecanismo para desestimular a venda in natura e forçar a agregação de valor aqui dentro.
Os desafios que não podem ser ignorados
Seria ingênuo pintar esse cenário como um mar de rosas. Os obstáculos são reais e consideráveis:
- Falta de infraestrutura de processamento. O Brasil domina a etapa de mineração, mas engatinha na separação e refino — exatamente as fases onde o valor se multiplica.
- Necessidade de mão de obra especializada. A cadeia de terras raras exige químicos, engenheiros de materiais e técnicos com formação altamente específica. O país ainda não tem esse contingente em escala.
- Questões ambientais e regulatórias. A mineração de terras raras pode envolver radioatividade natural associada ao tório e urânio presentes nos minérios. Garantir licenciamento ágil e responsável é um equilíbrio delicado.
- Pressão geopolítica. Ficar entre China e Estados Unidos nesse jogo não é confortável. O alinhamento com os americanos via Serra Verde é estratégico, mas também nos coloca no radar de Pequim.
O que esperar daqui para frente?
O mundo precisa de terras raras em volume crescente. As estimativas apontam que a demanda por terras raras magnéticas já dobrou desde 2015 e deve superar 120 mil toneladas em 2030. Enquanto isso, os gargalos de suprimento devem persistir ao longo de 2026, especialmente para as terras raras pesadas.
Para o Brasil, a janela de oportunidade é agora. E ela se abre em três frentes:
- Atração de investimento estrangeiro — como a compra da Serra Verde pela USA Rare Earth demonstra, há capital global querendo diversificar cadeias. Mas precisamos negociar bem: não basta atrair, é preciso garantir que o beneficiamento aconteça aqui.
- Desenvolvimento de tecnologia nacional — universidades e centros de pesquisa brasileiros (como a USP, Unicamp e o IPT) já desenvolvem rotas de separação e purificação. O fomento a esses projetos é o que vai nos tirar da dependência de know-how externo.
- Integração regional — a América Latina tem lítio (Chile, Argentina, Brasil), cobre (Chile, Peru) e terras raras (Brasil). Uma estratégia coordenada poderia posicionar o continente como um polo alternativo de suprimento global
A pergunta que fica
O Brasil tem a geologia. Tem a legislação. Tem o primeiro projeto em operação. Tem o interesse das grandes potências.
O que ainda falta é transformar potencial em produto. E isso passa por decisões que vão muito além da mineração: passa por política industrial, formação de talentos, infraestrutura energética e uma visão de longo prazo que o país, historicamente, tem dificuldade em manter.
A corrida das terras raras já começou. A questão não é mais se o Brasil vai participar — é como vai participar. Como fornecedor de matéria-prima bruta, repetindo ciclos coloniais? Ou como protagonista de uma cadeia de valor que pode redefinir seu lugar no mundo?
A resposta ainda está sendo escrita. Mas, pela primeira vez em muito tempo, parece que estamos segurando a caneta.
E você, o que pensa sobre isso?
O Brasil deve priorizar a exportação de minério bruto ou investir pesado no beneficiamento interno? Deixe sua opinião nos comentários!
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📚 Fontes e Referências
- FOI (Swedish Defence Research Agency) — Rare earth dependencies and strategic leverage in Europe's security order, agosto de 2026.
- BRASILMINERAL — Ainda em segundo lugar, nova estimativa traz Brasil com 15% das reservas de terras raras, abril de 2026.
- Agência Senado — Senado vai analisar criação de política nacional para minerais críticos, maio de 2026.
- S&P Global — Rare earth supply bottlenecks set to persist in 2026, janeiro de 2026.
- ABC (Academia Brasileira de Ciências) — O que o caso Serra Verde nos ensina sobre terras-raras, maio de 2026.
- Agência Brasil — Empresa de EUA compra mineradora brasileira de terras raras, abril de 2026.
- Senado Federal — Brasil é 2º país em terras-raras, mas faltam tecnologia e garantias ambientais, janeiro de 2026.
- Câmara dos Deputados — Câmara aprova projeto que cria política nacional de produção e beneficiamento de minerais estratégicos, maio de 2026.
- Times Brasil | CNBC — Nova política busca aumentar produção de minerais críticos no Brasil, setembro de 2026.
Publicado por Senhor FaceLider — seu portal de tecnologia, comportamento digital e futuro da sociedade.


